Todas As Noites de Lua Cheia


06/10/2008


AS MÃOS DE ALVAREZ (1º PARTE)

           - Estão lindas...

            O elogio pegou Alvarez de surpresa. Atrás de si, sua esposa balançava a cabeça satisfeita.

            - Faltava apenas uma poda, remover os insetos daninhos... Coisa simples.

            O jardim florido recendia o cheiro de terra fresca molhada, rosas e folhas. O Sol brilhava entre as ramagens e as gotas suspensas refletiam a luz em efeitos prismáticos.

            - Pode ser... Pode ser... Mas ninguém faria isso como você, amor. As rosas estavam quase mortas, você sabia que tem o toque de um anjo? Sério: Toda planta que você toca parece ganhar vida!

            Ela acariciou as mãos do marido. Calejadas, dedos compridos e unhas sempre bem feitas. Limpou a terra com a beira do vestido e beijo-as.

            - Elas podem fazer bem mais do que ajeitar folhas e flores...

            Riram.

            - Depois. Agora eu tenho que providenciar o jantar e as crianças precisam de atenção... E sua mãe anda reclamando de dores novamente... Ela pediu para não falar nada, mas...

            Ele assentiu.

            - Eu cuido disso.

(...)

            O garoto olhava frustrado para as peças do aeromodelo, procurando esconder o choro.

            - E então, campeão? Não agüentou esperar pela ajuda do pai?

            Virou-se assustado, os olhos culpados aguardando uma repreensão que não veio. Alvarez sempre conseguia se aproximar silenciosamente e tinha a fantástica capacidade de flagrar seus filhos em momentos como aquele.

            - Pensei que conseguia fazer sozinho... Agora, eu estraguei tudo... Olha!

            Manuseou a asa recém montada. As peças estavam tortas e havia excesso de cola, formando uma espécie de cicatriz nas junções. A folha com adesivos para a carlinga, asas e laterais estava amassada e cheia de cola. Alvarez riu.

            - Não está tão mal assim... Vai na garagem, pega minha caixa de ferramentas e vamos tentar de novo... Desta vez, juntos.

            Lixa fina, lixa de unhas que Alvarez fingiu roubar da mulher, agulhas, adesivo plástico... A asa foi refeita e o garoto olhava fascinado enquanto as peças iam sendo destacadas e encaixadas com precisão. Nenhum excesso, nenhuma peça torta. O avião estava perfeito... Ou quase.

            Munido de um pincel de ponta firme e tinta, Alvarez o pintou e desenhou caprichosamente os símbolos nos locais certos, copiando aqueles da caixa do aeromodelo. Não sabia o que significavam, mas sabia que o filho sorria e ficava espantado com a precisão e o capricho. As mãos manuseavam peças minúsculas sem a mínima tremedeira ou insegurança. Precisas, exatas.

            - Agora, precisamos deixar secar antes de você brincar com ele. Um pouco de paciência agora, hein?

            - Que habilidade, papai! Olha: Ficou perfeito! Até os círculos com a cruz vermelha... Nem parece que foi pintado!

            Beijou as mãos do pai em agradecimento e foi brincar com Lalá, enquanto a tinta secava e o jantar estava sendo preparado.

(...)

            - A benção, mãe.

            - Deus te abençoe, meu filho.

            A velha senhora estava sentada no sofá, as pernas enroladas em um velho cobertor com cheiro de limpeza. O trabalho de crochê estava abandonado em um canto havia semanas, aguardando que o tempo voltasse a ficar seco.

            - As mãos novamente?

            A velha sorriu de forma triste, meio acanhada.

            - No fim da vida, meu filho... Logo eu vou me encontrar com seu pai, mas até lá... Só dando mais e mais trabalho para você, meu querido...

            Tomou as mãos da mãe com cuidado. As manchas espalhavam-se pela pele enrugada e os dedos estavam curvados para dentro. Delicadamente, começou a massagear enquanto falava sobre o dia, sobre a copa do mundo que se desenrolava na Alemanha, sobre o preço dos alimentos e sobre o jardim.

            A velha ouvia e arriscava um ou outro palpite, feliz pela atenção dispensada e pelo alívio das dores, conforme a massagem prosseguia.

            Após terminar com as mãos, tocou os pés enregelados de sua mãe e começou nova massagem, desta vez para facilitar a circulação do sangue.

            - E estes comunistas, meu filho? É verdade que eles cospem na face de Cristo nas igrejas?

            - Quem lhe disse isso, mamãe?

            - Eu ouço as conversas... Gente ruim... Não acreditam em Deus nosso senhor e querem acabar com as famílias... Dizem que cada vez mais pessoas estão virando comunistas...

            - Os comunistas não vão chegar perto da senhora, mamãe. Eu te protejo, está bem?

            - Debochado! A velha riu-se, sentindo os pés novamente.

            - Deboche nada, olha só o tamanho desta pata! E balançou a mão aberta, rindo em acompanhamento.

            - Agora eu vou para casa, o jantar deve estar esfriando e eu preciso ver a Lalá... A benção, mãe.

            A figura enorme do filho afastou-se. Ela olhou as mãos com os dedos em sua posição correta novamente, sentiu a vida percorrer as velhas pernas. Sussurrou baixinho.

            - Deus te abençoe... Deus te abençoe...

Escrito por Eddie, o Lobo às 19h24
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AS MÃOS DE ALVAREZ (2º PARTE)

(...)

            - Mas é verdade! Tem um bicho debaixo da minha cama!

            - Lalá... Papai e mamãe não podem ficar deixando você dormir toda noite na cama deles...

            - Por que?

            Alvarez olhou confuso para a menina de grandes olhos e sorriso banguela. Sua esposa escondeu o riso e ficou esperando qual resposta ele daria.

            - Porque... Porque não tem bicho debaixo da cama! Olha, vamos ver juntos?

            A menina balançou a cabeça, teimosa.

            - Papai, ele só aparece quando a gente apaga a luz!

            - E se papai deixar a luz acesa? Assim o bicho não aparece...

            - Viu? Você sabe que tem um bicho!

            Alvarez ficou vermelho. Sua esposa agora gargalhava abertamente. Era sempre assim: O gigantesco Alvarez sempre conseguia ser feito de bobo pela filha que não alcançava sequer a marca de sua cintura. Resolveu ajudá-lo.

            - Lalá, não tem bicho nenhum, são só sombras!

            A menina olhou desconfiada.

            - Sombras?

            Alvarez teve a idéia e pediu uma vela para sua esposa. A menina olhava cada vez mais desconfiada, enquanto ele apagava a luz e acendia a vela. Ameaçou chorar, mas sua mãe estava sentada ao seu lado.

            - Sombras são... São... Veja isso: Quando a gente coloca alguma coisa na frente da luz, ela faz sombra na parede.

            A mão espalmada acenou para ela.

            - Mas isso é sua mão, o bicho não se parece nada com isso!

            - Às vezes, uma coisa pode fazer várias sombras diferentes... O bicho se parece com isso?

            A outra mão uniu-se a primeira e logo a sombra de um galo apareceu na parede.

            - Não! A menina e a mãe riram.

            - Então... Com isso?

            Um cavalo apareceu. Alvarez imitou um relincho e fez a sombra mover-se, como se estivesse comendo alguma coisa.

            Um pássaro voando, um velho, um índio... As sombras apareciam e desapareciam e Lalá ria até o limite das lágrimas. Não demorou e ela resolvesse imitar o pai e brincar com as sombras. A mãe entrou na brincadeira e inventou uma história, enquanto o marido criava com as mãos as personagens correspondentes.

            Logo a menina caía em um sono tranqüilo. Cobriram-na e saíram silenciosamente do quarto.

            - Que dia! Você é a terceira criança desta casa, sabia?

            Alvarez tocou nos ombros de sua esposa e pressionou lentamente.

            - Hummmm... Retiro o que disse. Talvez não tão criança assim...

            Entraram no quarto do casal. Ela sentiu a camisola sendo retirada, mas mal sentiu as mãos roçando seu corpo durante o processo.

            - Mãos leves...

(...)

            Eles chegaram de madrugada. O telefone tocou pouco antes do carro estacionar na frente da casa de Alvarez, dando tempo suficiente para que ele colocasse suas roupas e só. Sua esposa fez um muxoxo de desagrado, mas resignou-se. Sabia dos horários de seu marido e não se queixava.

            Alvarez passou pelo quarto de seu filho. O garoto dormia, ainda agarrado ao avião como a um troféu raro. Retirou o brinquedo silenciosamente, sem que o garoto acordasse.

            A menina estava descoberta. Mãos suaves e protetoras a cobriram novamente.

            Seguiu em silêncio, embora os ocupantes do carro puxassem assuntos sobre a Copa de 74, a falta de Pelé, Gérson, Carlos Alberto Torres e Tostão, a recente vitória do Brasil contra a seleção Argentina...

            Alheio a tudo, Alvarez torcia as mãos.

            Ao chegarem, deram-lhe nomes, lugares, um resumo dos acontecimentos e das suspeitas. Alvarez colocou um capuz que deixava expostos somente os olhos e entrou na sala.

            Sentados e com as mãos amarradas atrás das costas, dois homens e uma mulher aguardavam. Alvarez não faria perguntas... Não ainda.

            Por experiência, sabia que as mulheres agüentavam melhor a dor do que homens. Foi por ela que resolveu começar.

            Antes, apenas mostrou as mãos aos dois homens. Os agentes do Departamento de Ordem e Política Social sorriram.

            No DOPS, todos sabiam as maravilhas que Alvarez era capaz de realizar com suas mãos.

Escrito por Eddie, o Lobo às 19h23
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