- Estão lindas...
O elogio pegou Alvarez de surpresa. Atrás de si, sua esposa balançava a cabeça satisfeita.
- Faltava apenas uma poda, remover os insetos daninhos... Coisa simples.
O jardim florido recendia o cheiro de terra fresca molhada, rosas e folhas. O Sol brilhava entre as ramagens e as gotas suspensas refletiam a luz em efeitos prismáticos.
- Pode ser... Pode ser... Mas ninguém faria isso como você, amor. As rosas estavam quase mortas, você sabia que tem o toque de um anjo? Sério: Toda planta que você toca parece ganhar vida!
Ela acariciou as mãos do marido. Calejadas, dedos compridos e unhas sempre bem feitas. Limpou a terra com a beira do vestido e beijo-as.
- Elas podem fazer bem mais do que ajeitar folhas e flores...
Riram.
- Depois. Agora eu tenho que providenciar o jantar e as crianças precisam de atenção... E sua mãe anda reclamando de dores novamente... Ela pediu para não falar nada, mas...
Ele assentiu.
- Eu cuido disso.
(...)
O garoto olhava frustrado para as peças do aeromodelo, procurando esconder o choro.
- E então, campeão? Não agüentou esperar pela ajuda do pai?
Virou-se assustado, os olhos culpados aguardando uma repreensão que não veio. Alvarez sempre conseguia se aproximar silenciosamente e tinha a fantástica capacidade de flagrar seus filhos em momentos como aquele.
- Pensei que conseguia fazer sozinho... Agora, eu estraguei tudo... Olha!
Manuseou a asa recém montada. As peças estavam tortas e havia excesso de cola, formando uma espécie de cicatriz nas junções. A folha com adesivos para a carlinga, asas e laterais estava amassada e cheia de cola. Alvarez riu.
- Não está tão mal assim... Vai na garagem, pega minha caixa de ferramentas e vamos tentar de novo... Desta vez, juntos.
Lixa fina, lixa de unhas que Alvarez fingiu roubar da mulher, agulhas, adesivo plástico... A asa foi refeita e o garoto olhava fascinado enquanto as peças iam sendo destacadas e encaixadas com precisão. Nenhum excesso, nenhuma peça torta. O avião estava perfeito... Ou quase.
Munido de um pincel de ponta firme e tinta, Alvarez o pintou e desenhou caprichosamente os símbolos nos locais certos, copiando aqueles da caixa do aeromodelo. Não sabia o que significavam, mas sabia que o filho sorria e ficava espantado com a precisão e o capricho. As mãos manuseavam peças minúsculas sem a mínima tremedeira ou insegurança. Precisas, exatas.
- Agora, precisamos deixar secar antes de você brincar com ele. Um pouco de paciência agora, hein?
- Que habilidade, papai! Olha: Ficou perfeito! Até os círculos com a cruz vermelha... Nem parece que foi pintado!
Beijou as mãos do pai em agradecimento e foi brincar com Lalá, enquanto a tinta secava e o jantar estava sendo preparado.
(...)
- A benção, mãe.
- Deus te abençoe, meu filho.
A velha senhora estava sentada no sofá, as pernas enroladas em um velho cobertor com cheiro de limpeza. O trabalho de crochê estava abandonado em um canto havia semanas, aguardando que o tempo voltasse a ficar seco.
- As mãos novamente?
A velha sorriu de forma triste, meio acanhada.
- No fim da vida, meu filho... Logo eu vou me encontrar com seu pai, mas até lá... Só dando mais e mais trabalho para você, meu querido...
Tomou as mãos da mãe com cuidado. As manchas espalhavam-se pela pele enrugada e os dedos estavam curvados para dentro. Delicadamente, começou a massagear enquanto falava sobre o dia, sobre a copa do mundo que se desenrolava na Alemanha, sobre o preço dos alimentos e sobre o jardim.
A velha ouvia e arriscava um ou outro palpite, feliz pela atenção dispensada e pelo alívio das dores, conforme a massagem prosseguia.
Após terminar com as mãos, tocou os pés enregelados de sua mãe e começou nova massagem, desta vez para facilitar a circulação do sangue.
- E estes comunistas, meu filho? É verdade que eles cospem na face de Cristo nas igrejas?
- Quem lhe disse isso, mamãe?
- Eu ouço as conversas... Gente ruim... Não acreditam em Deus nosso senhor e querem acabar com as famílias... Dizem que cada vez mais pessoas estão virando comunistas...
- Os comunistas não vão chegar perto da senhora, mamãe. Eu te protejo, está bem?
- Debochado! A velha riu-se, sentindo os pés novamente.
- Deboche nada, olha só o tamanho desta pata! E balançou a mão aberta, rindo em acompanhamento.
- Agora eu vou para casa, o jantar deve estar esfriando e eu preciso ver a Lalá... A benção, mãe.
A figura enorme do filho afastou-se. Ela olhou as mãos com os dedos em sua posição correta novamente, sentiu a vida percorrer as velhas pernas. Sussurrou baixinho.
- Deus te abençoe... Deus te abençoe...




Leia este blog no seu celular