Todas As Noites de Lua Cheia


19/01/2009


FÁBULAS DO IRMÃO LOBO

 

O VELHO SÁBIO – A FÁBULA DE WONG WOLF.

 

Devido a uma divergência sobre os limites de propriedade entre dois grandes senhores chineses, Wong Wolf foi encarregado de trazer um jurista para decidir a questão antes que seu mestre e o vizinho entrassem em conflito.

Ao chegar a ponte que o levaria até a cidade, Wong Wolf encontrou um velho que lhe perguntou o que estava fazendo e depois de ouvir a história, prontificou-se a acompanhá-lo e ajudar a resolver a questão.

O mestre de Wong Wolf foi o primeiro a falar: Falou durante horas a respeito dos limites de sua propriedade, de suas criações e plantações, de seus antepassados... O velho o ouvia, sempre sorrindo. Quando acabou, o velho colocou sua mão no ombro do palestrante e disse:

- Você tem razão.

O vizinho ficou enfurecido: Como o sábio podia decidir isso sem antes ouvir a outra versão da história? E assim, defendeu ardorosamente seu ponto de vista, sua história, as vantagens que o comércio havia lhe trazido... O velho sorriu mais ainda, abraçou o vizinho e disse:

- Você tem razão!

Wong Wolf estava confuso e, depois de muito pensar, decidiu intervir:

- Velho sábio, isso me parece sem sentido! Como podem ambos os senhores divergir completamente a respeito do mesmo assunto e ambos estarem com a razão? Um deles deve estar sem razão nenhuma!

O velho sorriu, pensou bastante e abraçou Wong Wolf:

- Você tem razão!

 

MORAL: Na verdade, Wong Wolf deveria ter seguido as ordens de seu mestre e ter procurado um advogado ou equivalente. E ele apenas SUPÔS que aquele velho fosse sábio pela idade avançada que ele demonstrava, afinal as condições de higiene, saúde e alimentação eram precários na China antiga e somente alguém muito rico ou muito sábio conseguia chegar além dos quarenta e poucos anos. O velho divertiu-se bastante e foi a primeira vez que lhe davam tanta atenção assim em muitos anos. Provavelmente, deveria estar senil e foi abandonado pela família naquela ponte quando Wong Wolf o encontrou.

 

OS TRÊS CAVALOS E O CÃO – UMA FÁBULA AMORAL.

 

Três cavalos pastavam tranqüilamente em uma tarde de brisa fresca, quando de repente um deles resolveu comentar com os outros:

- Tive uma boa vida, sabiam? Fui o cavalo de um bravo soldado e muitas vezes o acompanhei em batalhas... De uma feita, meu amo foi ferido e eu o carreguei até as nossas linhas, onde ele recebeu socorro e foi salvo.

O segundo cavalo pensou um pouco e deu sua opinião:

- Também participei de muitas batalhas, mas fui a montaria de um nobre. Era minha função levá-lo para os acampamentos, onde as ordens e comandos eram dados. Quando se fez a paz, fui eu que o levei em glória pelos territórios conquistados.

O terceiro cavalo pronunciou-se:

- Já eu fui o cavalo de um religioso. Na guerra, meu senhor me conduzia para abençoar as tropas, confortar feridos e falar sobre os desígnios divinos para as mães que perderam seus filhos em combate.

Um cão que ouvia a conversa dos cavalos resolveu intervir.

- Senhores, nunca participei de nenhum combate. Aliás, jamais me afastei do pequeno sítio de meu dono. Durante toda a minha vida segui ao seu lado e lhe dei companhia, amizade e lealdade. Defendi sua casa, servi de brinquedo para seu filho e hoje, velho e entravado, passo as noites aquecendo os pés de sua esposa e matando os ratos que ousam entrar em sua casa.

Os três cavalos ficaram um bom tempo em silêncio, estupefatos.

Por fim, o cavalo do religioso comentou:

- Viram que interessante? Um cachorro que fala!

 

MORAL: Nenhuma. Eu avisei logo no título da fábula. Consultem o dicionário e vejam o que significa “amoral”. Mas é uma história interessante, não é?

Escrito por Eddie, o Lobo às 09h49
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