Não sei se é por inveja, despeito ou pelo maldito sentimento de que se a vida não vale a pena, não deve valer a pena para ninguém – O conceito deturpado de “justiça”.
Duas semanas atrás comecei a estudar na USP. Até aí, nada demais: Cerca de 10.000 calouros começaram a estudar no mesmo dia, mas isso não diminuiu em nada a minha alegria. Afinal, eu estava conseguindo realizar a primeira parte de um de meus sonhos.
O saco é que quando dividi este momento com meus amigos (escolhidos a dedo e eu sei a diferença entre amigos, colegas, conhecidos e “aquela gente que apenas está ocupando o mesmo espaço físico que eu no trabalho / bar / clube ou coisa que o valha e não podemos fazer nada a respeito”), alguns da última classificação resolveram que poderiam acrescentar algo de útil com comentários tipo “É... Mas vai ser difícil conseguir alguma coisa na sua área”, “E você vai todo dia para lá? Vixe... Não vai agüentar! Cansa... Não compensa...” ou até mesmo “A USP não é lá estas coisas... Só tem nome”.
“Você teve sorte”.
Não. Não vou desfilar meu rosário egocêntrico dizendo que “sorte” não existe em determinadas condições. Não foi acaso, não foi porque eu estava no lugar certo e na hora certa. Quem tem o mínimo de discernimento sabe que “sorte” e “azar” possuem o mesmo nome: Conseqüências. Para cada atitude ou decisão que tomamos, existem as conseqüências.
Claro, existem aqueles que pagam por ela ou que as assumem. Existem os que se eximem, se desculpam ou tentam apelar para a atitude blasé de que nada interessa, de que eles são mais eles e se não gostarem...
E no meio disso tudo, relembro alguns momentos marcantes em que a cada pequena vitória ou tentativa, ouvi frases similares...
“Não é para tanto também! Qualquer um podia conseguir se esforçasse um pouco”; “Mas valeu a pena? Você nem parece que vive! Não sai, não viaja... Você só faz assim ou assado”; “Também... Depois de tanto tempo tentando, qualquer um consegue!”
“Você teve sorte”.
Ou, mais recentemente: “Se você tem direito a isso, então eu tenho também! Todo mundo é igual!”
... Há uma cena pequena de minha infância que transcrevi em um conto que aguarda revisão, trancado em uma gaveta. Volta e meia a lembrança retorna e a divido agora. Talvez para mudar o assunto de meu post para algo mais ameno.
Estava na praia, observando os barcos retornando com pescado para venda. Lembro que os pescadores abriam as caixas de isopor para expor a mercadoria ainda viva. Lembro de várias caixas fechadas.
Um velho me contou que as caixas ficavam fechadas porque os peixes pulavam, mesmo quando havia água suficiente para que eles não morressem. Eles sempre tentavam sair, mesmo que as chances de cair no mar fossem pequenas e que, provavelmente, acabariam morrendo no chão do barco ou na areia da praia.
Todas as caixas fechadas. Menos uma.
A dos caranguejos nunca precisava de tampa. Sim, vez ou outra algum caranguejo tentava sair, apoiando-se com as garras e tentando escalar a parede de isopor.
Quando isso acontecia, quando ele estava quase conseguindo... Os outros caranguejos o puxavam de volta. Isso se repetiu uma, duas, três... Nem sempre era o mesmo caranguejo – Mas a reação era sempre a mesma.
Todos no barril. Iguais. Presos. Assustados. Brutalmente ferrados.
Tenho certeza de que a caixa virasse, todos fugiriam. O problema era apenas UM conseguir algo no meio de tantos. A memória é falha, mais a impressão que ficou é que os caranguejos mais acomodados na caixa eram os que puxavam os fujões com maior vontade.
A justiça igualitária dos caranguejos...
... Particularmente, eu os aprecio. Sou capaz de devorar meia dúzia, com uma boa cerveja. Quem conhece e aprecia, sabe que a carne das garras (junto com o molho que acumula lá dentro... Hummmm!) é a parte mais cobiçada. Se me trouxerem algum com uma garra faltando e a desculpa for “É a prova de que está fresquinho! Perdeu a garra lutando contra outro caranguejo na cozinha”, eu já sei a minha resposta.
“Me tragam o que ganhou a briga”.




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