O trem chega à estação e conforme vai parando, vejo a aglomeração de gado humano do lado de fora. Gado humano é uma boa expressão, pelo conjunto e principalmente, pelo comportamento.
Antes mesmo que as portas estejam completamente abertas as pessoas invadem o trem: Empurrando, gritando, xingando e correndo para sentarem-se. Não nos deixam sair. Ali uma senhora vacila em seus passos e só não cai porque a massa humana as suas costas a sustenta e a projeta para frente. A garota bonita xinga por ter sido bolinada, outra garota bonita em sentido contrário abre caminho com seus cotovelos. O mulato gordo e forte avança e senta-se, gritando alegremente.
Os bancos cinzas são tomados sem constrangimento. Sem culpa.
Aquilo que não os mata os deixa embrutecidos.
Do Brás para Barra Funda as pessoas não entendem que não é proibido andar na escada rolante. A mulher estática que tem a sua frente livre ignora as pessoas que a ultrapassam – Dois minutos perdidos. Farão falta.
Uma mãe xinga o filho pré-adolescente: Ele esqueceu a mochila aberta dentro do trem e seu MP algum número foi roubado. Ele não tolera a bronca: “Eu só esqueci a mochila aberta!”. Escuto isso com freqüência em todos os lugares: “Eu só marquei o código do produto errado!”, “Eu só inverti o número das bobinas!”, “Eu só esqueci de dar o recado!”. “Eu só fiz isso e aquilo e agora que a cagada está feita eu não tenho culpa de nada!”. Eu entendo, eles só fizeram o ato em si – Os outros que entendam e consertem as conseqüências.
Aquilo que não os mata os deixa insensíveis.
Na volta é sempre pior. Dei azar novamente: Peguei o “Expresso da Fé”.
O “Expresso da Fé” é o vagão que os evangélicos que retornam para Guaianazes e adjacências pegam. Vagões lotados, desodorantes vencidos, cansaço, o gosto amargo dos desaforos engolidos e agora os Testemunhos, a pregação, o louvor...
“Quando o Espírito de Deus habita em mim / Eu pulo como o Rei Davi...” cantam as garotas magrelas de mãos dadas, convidando os outros passageiros a juntarem-se ao coro.
Fuzilo o senhor de cabeça chata com o olhar vidrado que grita que já foi um pouco de tudo e que foi liberto, olho com simpatia os rockers estourando seus tímpanos, mas mantendo o fone de ouvido. Reflito sobre a grande verdade de quanto maior a potência do som, menor o bom gosto de quem escolhe as músicas. Ok, tudo bem. Não dá para exigir muito, a maioria das pessoas só consegue “entender” a bunduda do momento e o refrão engraçadinho...
No posto de gasolina em frente a estação tem cerveja. Em lata. R$ 3,00 a lata.
Quem pode regatear preços às 01:40 da madrugada? Ainda tenho vinte minutos de caminhada e preciso acordar às 05:20.
Então, na rua da minha casa, eu o vejo.
Moleque, descalço, calça de moletom esfarrapada e camiseta deixando a mostra os braços cheios de feridas. Deve ter no máximo dez anos, dei um desconto pelo tamanho e pela magreza.
Ele me ignora, continua a mexer com cuidado nos sacos de lixo e vai apalpando, cheirando, provando. Até achar a lata de doce.
Doce barato. Lembro que quando era criança as latas eram abertas com abridor e a gente cortava o dedo tentando puxar um pedaço de goiabada ou marmelada. As latas de agora tem hastes, não deixam bordas cortantes e o menino deve achar isso bom, porque ele começa a lamber os restos de doce que ainda resta lá.
(Ele deve estar só imaginando... Só deve ser o cheiro...)
Tenho em casa duas dúzias de bananas que comprei no sábado passado. Estavam com bom preço, não tinha tempo de jantar mesmo... As bananas começam a ficar com as cascas enegrecidas em minha geladeira. Ainda comestíveis, mas enegrecidas.
O menino me olha, desafiador. Acendo o último cigarro da noite / madrugada e entro.
A decisão está tomada, eu vi a vontade com que o garoto lambia restos de doce da lata – Não vou deixar aquelas frutas apodrecerem e serem jogadas no lixo.
Paciência, bananas maduras, açúcar e canela. Tenho o suficiente para fazer dois potes de doce de banana. É gostoso para comer com pão.
É verdade o que dizem. Aquilo que não te mata, te contamina.




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