O frio trás o silêncio. Comprovo esta verdade (parcialmente) quando retorno para Mogi nos trens ainda lotados que partem do Brás – Casais abraçados, mais em busca de calor do que de carinho ou por carinho; crianças nos colos de suas mães, viajantes fatigados de olhar perdido... Todos evitando falar, poucas risadas escoando. Exceto pelo tagarelar dos irmãos e irmãs no Expresso da Fé, o frio tira a disposição de conversas e (estranho) nos faz desejar confidenciar, ouvir e contar segredos... Talvez mostrar que tudo está bem e a pele congela, mas aquela coisa dentro do peito não precisa seguir a pele. Não neste momento.
O vento seco é pior do que a garoa. Tento acender um cigarro e vejo que as extremidades de meus dedos estão azuladas. O vento leva o calor de meu corpo através das roupas. O frio não desperta – dá sono.
Até minha sede está diferente. Não desejo cerveja ou vodca gelada, quero conhaque com mel e limão, se for daqueles vagabundos com sabor pronunciado de gengibre. Quero conhaque puro, se for daqueles bons, que “agarram” o interior do copo e descem languidamente enquanto você o gira e sente o aroma de madeira.
Penso naqueles que bebem para se aquecer e morrem de hipotermia, na ilusão do calor alcoólico. Penso naqueles que dormem pelo frio e talvez vida seja mesmo calor.
E penso, sobretudo nas pessoas que são obrigadas a sobreviver na noite, sem roupas que possam aquecê-las e elas ainda riem e riem... As pobres go-go-girls da boate Barcelona...




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