Camila já quase não falava mais. Começava a acreditar em seu irmão mais velho: Que era burra demais, que era uma tonta.
Não havia palavras para descrever e as poucas que ela conhecia não se encaixavam. Tentava reordenar seu vocabulário infantil (Sempre sozinha. Sempre sozinha. Sempre sozinha...) e não conseguia explicar.
Ela sequer conseguia entender.
Então se calava, mas olhava pensativa sua nova Desire.
Sua mamãe matraqueava com as amigas as últimas do clube, as novidades da academia que freqüentava três vezes por semana, mais um feriado prolongado em Búzios. Quem havia saído com quem e os casamentos desfeitos no final de verão.
Às vezes olhava para Camila brincando com sua boneca Desire e suspirava. A menina estava cada vez mais pálida e calada e aquilo a constrangia. Claro que a levara ao médico, ao psicólogo infantil, ao ludoterapeuta e até mesmo a um cromoterapeuta (indicação de uma de suas amigas).
(É apenas um carinho... Você não gosta mais de mim?)
Aquilo já estava se tornando irritante. Claro que suas amigas (sempre elas!) entendiam as fases pelas qual uma criança costumava passar. Ficavam manhosas, chorosas, birrentas... Gargalhavam com exemplos, normalmente de filhos de empregadas e parentes menos favorecidos e aguardavam que o constrangimento da anfitriã passasse. Até mesmo fingiram não perceber o dia em que ela urinou em suas roupas ao final de mais uma tarde agradável.
(Não tenha medo)
Talvez seu marido estivesse mimando demais a menina. Umas duas ou três vezes por mês ele lhe trazia uma boneca nova e cara, depois passavam algumas horas brincando. “Importante interagir com seus filhos” e ela concordava, pois havia lido isso em algum lugar e sempre poderia citar como exemplo em alguma conversa sobre educação emocional de crianças. E Camila cada vez mais calada e arredia.
(Não vai doer)
Escolinha. Lanches saudáveis. Brinquedos educativos. Monitores preparados. Aulas de natação (canceladas durante algumas semanas por seu marido “Não convém forçar demais uma criança, ela deve ser preparada sem que seja cobrada em seu desempenho” e ela concordou)... Uma hora dessas, alguém teria que conversar com ela. Tentar descobrir que diabos a menina tinha – ou não tinha, pois a seu ver ela levava uma vida confortável e regrada. Camila tinha de tudo.
(É um segredo. Você não pode contar para ninguém, entende?)
Camila já quase não falava mais. Havia retirado a calça de Desire e agora forçava as pernas da boneca com suas mãozinhas gorduchas, os olhos em lágrimas. Sua mente martelava a mesma pergunta sem parar: “Por que?”. Ela era boazinha, não era? E eles estavam sempre certos? Ela tinha comida, brinquedos, roupas bonitas e sempre ganhava uma boneca Desire.
Sempre a boneca Desire.
Desire.
- Camila!
O estalo assustou a todas na sala. A mãe de Camila disfarçou o cenho franzido e suas amigas baixaram os olhos enquanto fingiam pegar novamente um pedaço de bolo trufado ou bebericar licor.
Mais controlada, ela modulou a voz e fez uma leve censura à filha.
- Camila, veja só o que você fez! Ela está destroçada! Acha que papai vai ficar feliz com isso?
(Papai te ama, filhota... Isso é só um carinho, está bem? Deixe-me ver estas perninhas...)
(Não conte)
(Esse é nosso segredo)
Destroçada.
Uma nova palavra. Camila ainda não sabia o que significava “destroçada”, mas supunha que tinha ligação com a boneca quebrada, as pernas molengas balançando ao lado do corpo e o sorriso plástico que nunca se desfazia, nem mesmo se uma boneca pudesse sentir algo.
As palavras viriam devagar, mas ela adivinhava que teria que pronunciá-las sozinha.




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