Todas As Noites de Lua Cheia


10/09/2009


ENQUANTO ISSO, O DELEGADO PACHECO...

“CONFIRMADA IDENTIDADE DO MANÍACO DA ESTOPA”

Por volta das 17:00 horas de ontem, quinze pré-adolescentes com idade variando de 10 a 14 anos reconheceram o Homem-do-Saco como o pedófilo “Maníaco da Estopa” que estaria agindo na região do bairro do Taboão, em Mogi das Cruzes. Através de denúncias anônimas, os policiais da 666º DP chegaram até o barraco que servia de moradia ao meliante e encontraram sacos de estopa, brinquedos, doces e um computador que está sendo analisado pela PF, além de vídeos caseiros onde aparecem o Homem-do-Saco obrigando as crianças a sentarem em seu colo e comerem toda a comida, antes de serem devolvidas para suas casas.

Através de ameaças de serem devoradas ou virarem sabão, as crianças eram obrigadas a comer salada, verduras e bife de fígado, existindo ainda a suspeita de colaboração de adultos das próprias famílias para a seleção das vítimas, conforme testemunha A.P.P (12 anos).

“Minha mãe sempre me disse que se eu ficasse na rua e fosse desobediente, o Homem-do-Saco ia me pegar e me levar...”

Completamente alterado, Homem-de-Saco alegou que apenas cumpria uma função educativa e recusa a admitir contatos físicos que causassem constrangimento às crianças. Questionado sobre seu modus operantis de ameaças e as dezenas de vídeos onde ele aparece interagindo com suas vítimas, Homem-do-Saco apenas citou que as autoridades deveriam investigar Papai Noel (Também conhecido pelas alcunhas de “Vovô Geada”, “Bom Velhinho” e “Santa Claus”), conhecido filantropo finlandês que abandona sua reclusão uma vez por ano em uma esperada tournée internacional. Homem-do-Saco alegou que através de suborno, Papai Noel tem dezenas de contatos físicos com crianças e com pleno consentimento de seus familiares. O delegado Pacheco...

 

“FILME PORNÔ ESTREADO POR SACIS CAUSA POLÊMICA E CONSTRANGIMENTO”

O lançamento do filme pornográfico “Fica de Três, Benzinho” da produtora SASEXXX VÍDEOS causou tumulto e comoção na noite de ontem, durante sua exibição na casa noturna IARA’S.

Produzido inteiramente com atores e atrizes sacis, o filme recebeu críticas severas de movimentos negros e de defesa da mulher. O ator e diretor Pererê rebateu as críticas afirmando que por centenas de anos os personagens folclóricos portadores de deficiência são vistos com complacência e até mesmo descaso pela população.

“Fizemos este filme para mostrar que nós, sacis, vivemos uma sexualidade plena e satisfatória. Esta história de que sacizinho nasce de vento batendo em taquaral é uma forma de discriminação disfarçada de atitude politicamente correta, onde negam nossa sexualidade, nossos desejos e nos colocam como os pobre-coitados assexuados da mitologia afro-brasileira!”

Rodado com baixo orçamento e com a maioria dos atores ganhando apenas o piso salarial da classe, o filme mostra cenas explícitas de lesbianismo, sexo grupal, bestialismo (com a presença da mula-sem-cabeça, também incluída no cast de personagens folclóricas com deficiência física) e sadomasoquismo. Pererê negou-se a falar sobre os boatos de que os direitos do filme estariam sendo negociados com um grupo de empresários suecos que divulgam DVD eróticos na linha Amputed (na qual os atores apresentam amputação de membros – ver google).

Pererê ganhou notoriedade ao unir-se ao Movimento Negro “Prá Dentro e Prá Fora” para produzir o considerado clássico do erotismo “O Quilombo dos Prazeres”, mas afastou-se da seqüência “Xeca da Silva” pela recusa dos associados em utilizar atores sacis em personagens que não fossem cômicos. O delegado Pacheco...

 

“A.A INAUGURA NOVO GRUPO DE APOIO PARA PERSONAGENS FOLCLÓRICOS”

Representantes de diferentes segmentos do “Alcoólicos Anônimos” inauguram na próxima sexta-feira, no bairro de Taboão, uma filial destinada a assistir personagens folclóricos que sofram de alcoolismo – O Grupo Pé-de-Garrafa.

Pé-de-Garrafa teve uma rápida e pouca significativa passagem como personagem folclórico, caindo no ostracismo na década de 80 e entregando-se ao consumo desenfreado de álcool e antidepressivos, vindo a falecer recentemente sem receber nenhum apoio ou tratamento dos órgãos competentes.

O delegado Pacheco...

Escrito por Eddie, o Lobo às 15h39
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02/09/2009


DESIRE.

Camila já quase não falava mais. Começava a acreditar em seu irmão mais velho: Que era burra demais, que era uma tonta.

Não havia palavras para descrever e as poucas que ela conhecia não se encaixavam. Tentava reordenar seu vocabulário infantil (Sempre sozinha. Sempre sozinha. Sempre sozinha...) e não conseguia explicar.

Ela sequer conseguia entender.

Então se calava, mas olhava pensativa sua nova Desire.

 

Sua mamãe matraqueava com as amigas as últimas do clube, as novidades da academia que freqüentava três vezes por semana, mais um feriado prolongado em Búzios. Quem havia saído com quem e os casamentos desfeitos no final de verão.

Às vezes olhava para Camila brincando com sua boneca Desire e suspirava. A menina estava cada vez mais pálida e calada e aquilo a constrangia. Claro que a levara ao médico, ao psicólogo infantil, ao ludoterapeuta e até mesmo a um cromoterapeuta (indicação de uma de suas amigas).

 

(É apenas um carinho... Você não gosta mais de mim?)

 

Aquilo já estava se tornando irritante. Claro que suas amigas (sempre elas!) entendiam as fases pelas qual uma criança costumava passar. Ficavam manhosas, chorosas, birrentas... Gargalhavam com exemplos, normalmente de filhos de empregadas e parentes menos favorecidos e aguardavam que o constrangimento da anfitriã passasse. Até mesmo fingiram não perceber o dia em que ela urinou em suas roupas ao final de mais uma tarde agradável.

 

(Não tenha medo)

 

Talvez seu marido estivesse mimando demais a menina. Umas duas ou três vezes por mês ele lhe trazia uma boneca nova e cara, depois passavam algumas horas brincando. “Importante interagir com seus filhos” e ela concordava, pois havia lido isso em algum lugar e sempre poderia citar como exemplo em alguma conversa sobre educação emocional de crianças. E Camila cada vez mais calada e arredia.

 

(Não vai doer)

 

Escolinha. Lanches saudáveis. Brinquedos educativos. Monitores preparados. Aulas de natação (canceladas durante algumas semanas por seu marido “Não convém forçar demais uma criança, ela deve ser preparada sem que seja cobrada em seu desempenho” e ela concordou)... Uma hora dessas, alguém teria que conversar com ela. Tentar descobrir que diabos a menina tinha – ou não tinha, pois a seu ver ela levava uma vida confortável e regrada. Camila tinha de tudo.

 

(É um segredo. Você não pode contar para ninguém, entende?)

 

Camila já quase não falava mais. Havia retirado a calça de Desire e agora forçava as pernas da boneca com suas mãozinhas gorduchas, os olhos em lágrimas. Sua mente martelava a mesma pergunta sem parar: “Por que?”. Ela era boazinha, não era? E eles estavam sempre certos? Ela tinha comida, brinquedos, roupas bonitas e sempre ganhava uma boneca Desire.

Sempre a boneca Desire.

Desire.

 

- Camila!

 

O estalo assustou a todas na sala. A mãe de Camila disfarçou o cenho franzido e suas amigas baixaram os olhos enquanto fingiam pegar novamente um pedaço de bolo trufado ou bebericar licor.

 

Mais controlada, ela modulou a voz e fez uma leve censura à filha.

- Camila, veja só o que você fez! Ela está destroçada! Acha que papai vai ficar feliz com isso?

 

(Papai te ama, filhota... Isso é só um carinho, está bem? Deixe-me ver estas perninhas...)

(Não conte)

(Esse é nosso segredo)

 

Destroçada.

 

Uma nova palavra. Camila ainda não sabia o que significava “destroçada”, mas supunha que tinha ligação com a boneca quebrada, as pernas molengas balançando ao lado do corpo e o sorriso plástico que nunca se desfazia, nem mesmo se uma boneca pudesse sentir algo.

 

As palavras viriam devagar, mas ela adivinhava que teria que pronunciá-las sozinha.

Escrito por Eddie, o Lobo às 11h01
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05/06/2009


NESTE INVERNO, NÃO IREI PARA BARCELONA.

O frio trás o silêncio. Comprovo esta verdade (parcialmente) quando retorno para Mogi nos trens ainda lotados que partem do Brás – Casais abraçados, mais em busca de calor do que de carinho ou por carinho; crianças nos colos de suas mães, viajantes fatigados de olhar perdido... Todos evitando falar, poucas risadas escoando. Exceto pelo tagarelar dos irmãos e irmãs no Expresso da Fé, o frio tira a disposição de conversas e (estranho) nos faz desejar confidenciar, ouvir e contar segredos... Talvez mostrar que tudo está bem e a pele congela, mas aquela coisa dentro do peito não precisa seguir a pele. Não neste momento.

 

O vento seco é pior do que a garoa. Tento acender um cigarro e vejo que as extremidades de meus dedos estão azuladas. O vento leva o calor de meu corpo através das roupas. O frio não desperta – dá sono.

 

Até minha sede está diferente. Não desejo cerveja ou vodca gelada, quero conhaque com mel e limão, se for daqueles vagabundos com sabor pronunciado de gengibre. Quero conhaque puro, se for daqueles bons, que “agarram” o interior do copo e descem languidamente enquanto você o gira e sente o aroma de madeira.

 

Penso naqueles que bebem para se aquecer e morrem de hipotermia, na ilusão do calor alcoólico. Penso naqueles que dormem pelo frio e talvez vida seja mesmo calor.

 

E penso, sobretudo nas pessoas que são obrigadas a sobreviver na noite, sem roupas que possam aquecê-las e elas ainda riem e riem... As pobres go-go-girls da boate Barcelona...

Escrito por Eddie, o Lobo às 11h48
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30/04/2009


AQUILO QUE NÃO TE MATA.

            O trem chega à estação e conforme vai parando, vejo a aglomeração de gado humano do lado de fora. Gado humano é uma boa expressão, pelo conjunto e principalmente, pelo comportamento.

            Antes mesmo que as portas estejam completamente abertas as pessoas invadem o trem: Empurrando, gritando, xingando e correndo para sentarem-se. Não nos deixam sair. Ali uma senhora vacila em seus passos e só não cai porque a massa humana as suas costas a sustenta e a projeta para frente. A garota bonita xinga por ter sido bolinada, outra garota bonita em sentido contrário abre caminho com seus cotovelos. O mulato gordo e forte avança e senta-se, gritando alegremente.

            Os bancos cinzas são tomados sem constrangimento. Sem culpa.

            Aquilo que não os mata os deixa embrutecidos.

           

            Do Brás para Barra Funda as pessoas não entendem que não é proibido andar na escada rolante. A mulher estática que tem a sua frente livre ignora as pessoas que a ultrapassam – Dois minutos perdidos. Farão falta.

            Uma mãe xinga o filho pré-adolescente: Ele esqueceu a mochila aberta dentro do trem e seu MP algum número foi roubado. Ele não tolera a bronca: “Eu só esqueci a mochila aberta!”. Escuto isso com freqüência em todos os lugares: “Eu só marquei o código do produto errado!”, “Eu só inverti o número das bobinas!”, “Eu só esqueci de dar o recado!”. “Eu só fiz isso e aquilo e agora que a cagada está feita eu não tenho culpa de nada!”. Eu entendo, eles só fizeram o ato em si – Os outros que entendam e consertem as conseqüências.

            Aquilo que não os mata os deixa insensíveis.

 

            Na volta é sempre pior. Dei azar novamente: Peguei o “Expresso da Fé”.

            O “Expresso da Fé” é o vagão que os evangélicos que retornam para Guaianazes e adjacências pegam. Vagões lotados, desodorantes vencidos, cansaço, o gosto amargo dos desaforos engolidos e agora os Testemunhos, a pregação, o louvor...

            “Quando o Espírito de Deus habita em mim / Eu pulo como o Rei Davi...” cantam as garotas magrelas de mãos dadas, convidando os outros passageiros a juntarem-se ao coro.

            Fuzilo o senhor de cabeça chata com o olhar vidrado que grita que já foi um pouco de tudo e que foi liberto, olho com simpatia os rockers estourando seus tímpanos, mas mantendo o fone de ouvido. Reflito sobre a grande verdade de quanto maior a potência do som, menor o bom gosto de quem escolhe as músicas. Ok, tudo bem. Não dá para exigir muito, a maioria das pessoas só consegue “entender” a bunduda do momento e o refrão engraçadinho...

 

            No posto de gasolina em frente a estação tem cerveja. Em lata. R$ 3,00 a lata.

            Quem pode regatear preços às 01:40 da madrugada? Ainda tenho vinte minutos de caminhada e preciso acordar às 05:20.

           

            Então, na rua da minha casa, eu o vejo.

            Moleque, descalço, calça de moletom esfarrapada e camiseta deixando a mostra os braços cheios de feridas. Deve ter no máximo dez anos, dei um desconto pelo tamanho e pela magreza.

            Ele me ignora, continua a mexer com cuidado nos sacos de lixo e vai apalpando, cheirando, provando. Até achar a lata de doce.

            Doce barato. Lembro que quando era criança as latas eram abertas com abridor e a gente cortava o dedo tentando puxar um pedaço de goiabada ou marmelada. As latas de agora tem hastes, não deixam bordas cortantes e o menino deve achar isso bom, porque ele começa a lamber os restos de doce que ainda resta lá.

           

(Ele deve estar só imaginando... Só deve ser o cheiro...)

 

            Tenho em casa duas dúzias de bananas que comprei no sábado passado. Estavam com bom preço, não tinha tempo de jantar mesmo... As bananas começam a ficar com as cascas enegrecidas em minha geladeira. Ainda comestíveis, mas enegrecidas.

            O menino me olha, desafiador. Acendo o último cigarro da noite / madrugada e entro.

A decisão está tomada, eu vi a vontade com que o garoto lambia restos de doce da lata – Não vou deixar aquelas frutas apodrecerem e serem jogadas no lixo.

 

            Paciência, bananas maduras, açúcar e canela. Tenho o suficiente para fazer dois potes de doce de banana. É gostoso para comer com pão.

            É verdade o que dizem. Aquilo que não te mata, te contamina.

Escrito por Eddie, o Lobo às 12h27
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16/04/2009


COISAS QUE APRENDI EM UM MOSTEIRO DE MONGES BUDISTAS.

01 – Monges budistas não gostam de celulares. Muito menos quando ao invés de um toque padrão, o celular começa a uivar ou emitir sons de uma menina possuída pelo demônio.

 

02 – Monges budistas acordam quando eu estou indo dormir. E não costumam guardar o café da manhã para quem acorda atrasado (Principalmente quando este alguém acorda com o despertador do celular tocando o tema de “Missão Impossível”).

 

03 – Apesar de usarem roupas folgadas, serem orientais e rasparem a cabeça, monges budistas NÃO são monges Shaolin. E não adianta pedir a eles para ensinarem algum golpe mortal que pode ser aplicado por pessoas em péssima forma física.

 

04a – Apesar de monges budistas NÃO serem monges Shaolin, eles também não costumam levar desaforos para casa... E mentem quando dizem que não conhecem nenhum golpe de arte marcial que doa bastante.

04b – Não confiar em monges budistas que sorriem e são extremamente simpáticos ao pedirem pela milésima vez que desligue o maldito celular dentro do mosteiro. E não fazer piadas irônicas a respeito do corte de cabelo dos mesmos.

 

05 – Buda é representado como gordo... Quero dizer: obeso... Melhor ainda: Com índice de massa corporal acima de 40 para representar a fartura, não porque tinha algum problema na glândula tireóide.

 

06 – Os Beatles nunca disseram que eram mais populares que Buda.

 

07 – Monges budistas gostam de fazer perguntas para as quais não existem respostas. Isso é irritante, ainda mais quando eles ficam sorrindo e inclinando levemente o corpo em sua direção.

 

08 – Evitar usar incenso de patchouly para rituais de meditação, principalmente quando todos a sua volta utilizam apenas incensos rituais neutros. Incensos de defumação (Tipo “Abre Caminhos” ou “Tranca Corpo”), nem pensar.

 

09 – Mosteiros são locais muito, MUITO silenciosos. Dá para monges budistas ouvirem as músicas em MP3 da Ennya que você pensa estar ouvindo discretamente enquanto medita, com o maldito celular ligado novamente.

 

10 – Meditar não é dormir sentado nas próprias pernas e acordar com as mesmas formigando.

 

11a – Eram os monges da Igreja católica que tinham barris de cerveja e vinho escondidos no porão.

11b – Você NÃO vai querer abrir as caixinhas de madeira que monges budistas guardam no porão. Aquelas com nomes de pessoas escritas com pirógrafo na tampa.

11c - Mosteiros são locais muito, MUITO silenciosos. Dá para monges budistas ouvirem você gritando no porão, mesmo com as portas fechadas.

 

12 – Banhos de furô são deliciosos, mas evite associar mentalmente estes banhos com vinho branco gelado... Porões com barris de vinho... Caixinhas de madeira cobertas de poeira, com nomes escritos na tampa...

 

13 – Evite perguntar as horas para um monge budista depois que os mesmos esconderem seu celular porque você se recusa a desligá-lo. Vai ouvir uma resposta como “E o que é o tempo?”. Se você realmente estiver irritado, pode dissertar sobre o tempo ser a quarta dimensão envolvida na existência de um corpo e estar associado ao modo como delimitamos a execução de certas tarefas. Como o café da manhã que você nunca toma porque sempre chega atrasado ao refeitório.

 

14 – É Dalai Lama e não Dalai Lhama. Lhama é aquele bicho esquisito peruano que parece um cruzamento de camelo com carneiro.

 

15 – Não é uma honra você ser escolhido pelos monges mais velhos para passar algum tempo com os monges novatos porque “Eles precisam aprender a desenvolver a paciência”.

 

16 – Aquelas histórias que os monges contam, envolvendo animais e situações que você acha engraçadas se chamam “parábolas” e não “piadas”. E parábolas de escorpiões traiçoeiros, rãs ingênuas, serpentes agradecidas e cães sábios são aceitáveis. De papagaio bêbado e jumento tarado, não.

 

17 – Apesar dos sorrisos, tom de voz moderado e a inclinação humilde em sua direção, você sabe que está sendo considerado irritante quando vê um monge budista trabalhando em uma caixinha de madeira com o seu nome escrito na tampa. Tomar cuidado se os outros monges ainda ficam dando sugestões ou fazendo comentários sobre “Para que fazer tão grande?” Ou “Se nós ajudarmos, ela fica pronta antes de anoitecer”.

 

18 – Quando você finalmente acorda na hora para tomar o café da manhã (na verdade, não dormiu porque viu que a caixinha de madeira ficou pronta), os monges budistas decretam jejum. E os sorrisos transformam-se em gargalhadas.

Escrito por Eddie, o Lobo às 13h04
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13/03/2009


DA JUSTIÇA E DOS INSTINTOS DOS CARANGUEJOS.

            Não sei se é por inveja, despeito ou pelo maldito sentimento de que se a vida não vale a pena, não deve valer a pena para ninguém – O conceito deturpado de “justiça”.

 

            Duas semanas atrás comecei a estudar na USP. Até aí, nada demais: Cerca de 10.000 calouros começaram a estudar no mesmo dia, mas isso não diminuiu em nada a minha alegria. Afinal, eu estava conseguindo realizar a primeira parte de um de meus sonhos.

 

            O saco é que quando dividi este momento com meus amigos (escolhidos a dedo e eu sei a diferença entre amigos, colegas, conhecidos e “aquela gente que apenas está ocupando o mesmo espaço físico que eu no trabalho / bar / clube ou coisa que o valha e não podemos fazer nada a respeito”), alguns da última classificação resolveram que poderiam acrescentar algo de útil com comentários tipo “É... Mas vai ser difícil conseguir alguma coisa na sua área”, “E você vai todo dia para lá? Vixe... Não vai agüentar! Cansa... Não compensa...” ou até mesmo “A USP não é lá estas coisas... Só tem nome”.

 

            “Você teve sorte”.

 

            Não. Não vou desfilar meu rosário egocêntrico dizendo que “sorte” não existe em determinadas condições. Não foi acaso, não foi porque eu estava no lugar certo e na hora certa. Quem tem o mínimo de discernimento sabe que “sorte” e “azar” possuem o mesmo nome: Conseqüências. Para cada atitude ou decisão que tomamos, existem as conseqüências.

 

            Claro, existem aqueles que pagam por ela ou que as assumem. Existem os que se eximem, se desculpam ou tentam apelar para a atitude blasé de que nada interessa, de que eles são mais eles e se não gostarem...

 

            E no meio disso tudo, relembro alguns momentos marcantes em que a cada pequena vitória ou tentativa, ouvi frases similares...

 

            “Não é para tanto também! Qualquer um podia conseguir se esforçasse um pouco”; “Mas valeu a pena? Você nem parece que vive! Não sai, não viaja... Você só faz assim ou assado”; “Também... Depois de tanto tempo tentando, qualquer um consegue!”

 

            “Você teve sorte”.

 

            Ou, mais recentemente: “Se você tem direito a isso, então eu tenho também! Todo mundo é igual!”

 

            ... Há uma cena pequena de minha infância que transcrevi em um conto que aguarda revisão, trancado em uma gaveta. Volta e meia a lembrança retorna e a divido agora. Talvez para mudar o assunto de meu post para algo mais ameno.

 

            Estava na praia, observando os barcos retornando com pescado para venda. Lembro que os pescadores abriam as caixas de isopor para expor a mercadoria ainda viva. Lembro de várias caixas fechadas.

 

            Um velho me contou que as caixas ficavam fechadas porque os peixes pulavam, mesmo quando havia água suficiente para que eles não morressem. Eles sempre tentavam sair, mesmo que as chances de cair no mar fossem pequenas e que, provavelmente, acabariam morrendo no chão do barco ou na areia da praia.

 

            Todas as caixas fechadas. Menos uma.

 

            A dos caranguejos nunca precisava de tampa. Sim, vez ou outra algum caranguejo tentava sair, apoiando-se com as garras e tentando escalar a parede de isopor.

            Quando isso acontecia, quando ele estava quase conseguindo... Os outros caranguejos o puxavam de volta. Isso se repetiu uma, duas, três... Nem sempre era o mesmo caranguejo – Mas a reação era sempre a mesma.

 

            Todos no barril. Iguais. Presos. Assustados. Brutalmente ferrados.

            Tenho certeza de que a caixa virasse, todos fugiriam. O problema era apenas UM conseguir algo no meio de tantos. A memória é falha, mais a impressão que ficou é que os caranguejos mais acomodados na caixa eram os que puxavam os fujões com maior vontade.

A justiça igualitária dos caranguejos...

 

            ... Particularmente, eu os aprecio. Sou capaz de devorar meia dúzia, com uma boa cerveja. Quem conhece e aprecia, sabe que a carne das garras (junto com o molho que acumula lá dentro... Hummmm!) é a parte mais cobiçada. Se me trouxerem algum com uma garra faltando e a desculpa for “É a prova de que está fresquinho! Perdeu a garra lutando contra outro caranguejo na cozinha”, eu já sei a minha resposta.

 

            “Me tragam o que ganhou a briga”.

Escrito por Eddie, o Lobo às 12h34
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12/03/2009


A QUEIMA-ROUPA - A OUTRA VERSÃO

Recebi de minha namorada a "versão" dela de um post meu e devo dizer que eu adorei! Senão pela certeza que ela lê este blog, pela natureza da mulher que está comigo e é claro... Pelo post!

.....Naquela tarde  de sábado havia chovido muito e  a noite guardava ainda seu ar úmido

e  frio, o tempo mostrava que de repente viria tornar  a derrubar suas águas, tratei de caminhar mais rápido, pois, após um longo banho quente e relaxante e todo o ritual de preparação : creme hidratante no corpo, base de esmalte nas unhas, no rosto, apenas  um  delineador que destacava os olhos acizentados  ,    um batom  leve, cabelos presos ao alto da cabeça  e finalizando um  perfume          suave   mas  bastante feminino;não queria que nada estragasse minha produção feita especialmente  para ele, nem mesmo  uma chuva inesperada. No ônibus , as pessoas traziam  no semblante triste  uma certa preocupação demasiada com o cair das águas . Deixei de me  preocupar com ela, afinal de contas, era um processo natural e ela cumprira o seu papel. De  certa forma estava em paz comigo mesma  e a  condição de saber que  ele me aguardava me fazia  sentir  alegria, já  que não experimentava essa sensação  havia  algum tempo.

As pessoas corriam como loucas de um lado para outro, duas senhoras aparentemente requintadas não hesitaram em entrar em  um boteco para escapar dos pingos que pareciam cair com mais agressividade naquele momento; decidi esperar todos descerem e uma ansiedade tomou conta de mim naquele instante, parecia –me cada vez mais estar perto dele apesar de não vê-lo.Tentei proteger-me  dos pingos com uma pasta, mas tudo em vão, já que as rajadas enviadas da chuva impediam-me a visão. Senti seu cheiro e sua presença e ao voltar-me ele estava lá , de pé, sorrindo para mim.....Dois passos e um beijo... Testemunhando que sentira a minha falta.

Caminhamos até a casa, enquanto as pessoas ainda corriam da chuva, não nos importamos com os pingos e conversávamos ainda tímidos, chegando me sentei no sofá e ele ainda de pé, comentava  sobre algo que não me lembro, apenas ouvia  as lamentações da chuva lá fora,  o tremor  da janela com a pequena ventania , que se formava  depois  em temporal, dentro da casa o silêncio e eu atônita, sem voz  , fitando-o como se uma invasão de sentimentos houvessem me tomado naquele momento.....  Me lembrado apenas do seu sorriso..... Naquela hora  eu..... Me apaixonei.......

 

 


Escrito por Eddie, o Lobo às 12h42
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19/01/2009


FÁBULAS DO IRMÃO LOBO

 

O VELHO SÁBIO – A FÁBULA DE WONG WOLF.

 

Devido a uma divergência sobre os limites de propriedade entre dois grandes senhores chineses, Wong Wolf foi encarregado de trazer um jurista para decidir a questão antes que seu mestre e o vizinho entrassem em conflito.

Ao chegar a ponte que o levaria até a cidade, Wong Wolf encontrou um velho que lhe perguntou o que estava fazendo e depois de ouvir a história, prontificou-se a acompanhá-lo e ajudar a resolver a questão.

O mestre de Wong Wolf foi o primeiro a falar: Falou durante horas a respeito dos limites de sua propriedade, de suas criações e plantações, de seus antepassados... O velho o ouvia, sempre sorrindo. Quando acabou, o velho colocou sua mão no ombro do palestrante e disse:

- Você tem razão.

O vizinho ficou enfurecido: Como o sábio podia decidir isso sem antes ouvir a outra versão da história? E assim, defendeu ardorosamente seu ponto de vista, sua história, as vantagens que o comércio havia lhe trazido... O velho sorriu mais ainda, abraçou o vizinho e disse:

- Você tem razão!

Wong Wolf estava confuso e, depois de muito pensar, decidiu intervir:

- Velho sábio, isso me parece sem sentido! Como podem ambos os senhores divergir completamente a respeito do mesmo assunto e ambos estarem com a razão? Um deles deve estar sem razão nenhuma!

O velho sorriu, pensou bastante e abraçou Wong Wolf:

- Você tem razão!

 

MORAL: Na verdade, Wong Wolf deveria ter seguido as ordens de seu mestre e ter procurado um advogado ou equivalente. E ele apenas SUPÔS que aquele velho fosse sábio pela idade avançada que ele demonstrava, afinal as condições de higiene, saúde e alimentação eram precários na China antiga e somente alguém muito rico ou muito sábio conseguia chegar além dos quarenta e poucos anos. O velho divertiu-se bastante e foi a primeira vez que lhe davam tanta atenção assim em muitos anos. Provavelmente, deveria estar senil e foi abandonado pela família naquela ponte quando Wong Wolf o encontrou.

 

OS TRÊS CAVALOS E O CÃO – UMA FÁBULA AMORAL.

 

Três cavalos pastavam tranqüilamente em uma tarde de brisa fresca, quando de repente um deles resolveu comentar com os outros:

- Tive uma boa vida, sabiam? Fui o cavalo de um bravo soldado e muitas vezes o acompanhei em batalhas... De uma feita, meu amo foi ferido e eu o carreguei até as nossas linhas, onde ele recebeu socorro e foi salvo.

O segundo cavalo pensou um pouco e deu sua opinião:

- Também participei de muitas batalhas, mas fui a montaria de um nobre. Era minha função levá-lo para os acampamentos, onde as ordens e comandos eram dados. Quando se fez a paz, fui eu que o levei em glória pelos territórios conquistados.

O terceiro cavalo pronunciou-se:

- Já eu fui o cavalo de um religioso. Na guerra, meu senhor me conduzia para abençoar as tropas, confortar feridos e falar sobre os desígnios divinos para as mães que perderam seus filhos em combate.

Um cão que ouvia a conversa dos cavalos resolveu intervir.

- Senhores, nunca participei de nenhum combate. Aliás, jamais me afastei do pequeno sítio de meu dono. Durante toda a minha vida segui ao seu lado e lhe dei companhia, amizade e lealdade. Defendi sua casa, servi de brinquedo para seu filho e hoje, velho e entravado, passo as noites aquecendo os pés de sua esposa e matando os ratos que ousam entrar em sua casa.

Os três cavalos ficaram um bom tempo em silêncio, estupefatos.

Por fim, o cavalo do religioso comentou:

- Viram que interessante? Um cachorro que fala!

 

MORAL: Nenhuma. Eu avisei logo no título da fábula. Consultem o dicionário e vejam o que significa “amoral”. Mas é uma história interessante, não é?

Escrito por Eddie, o Lobo às 09h49
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15/01/2009


A SAIDEIRA.

(Um post baseado em fatos)
Todos conhecemos histórias apócrifas envolvendo personagens bíblicos. Na maioria das vezes são histórias contadas por gente simples do interior, reinterpretações de passagens existentes adaptadas para o cotidiano e palavras deles.
Mas, definitivamente, ESTA eu tenho que contar...
Bar do Castilho, noite de 26 de dezembro.
Tive que trabalhar na sexta-feira depois do Natal e ainda ouvir uma animada conversa a respeito do último filme da série Rambo, com direito ao comentário sobre uma armadilha feita por John Rambo utilizando uma mina que sobrou da guerra do VATICANO... Nada mais justo do que beber algumas cervejas geladas antes de ir para casa e sonhar com o que eu poderia fazer no ano novo (apenas sonhar, já que não havia sobrado quase nada do décimo terceiro). Já disse antes que ninguém me incomoda nos bares que freqüento, basta abrir um jornal ou livro e escolher entre ler ou observar a fauna notívaga e drinquívora. Escolhi observar a fauna.
Um magrelo de cabelos anelados e muito, muito embriagado abraça e deseja boas festas continuamente a seu amigo. Aquela velha conversa de "Você é que nem um irmão para mim" e "Eu te amo, cara... Veja bem... Eu te amo".
Entre um gole e outro de cerveja eu perco uma parte da conversa / declaração e é aqui que a conversa começa a se desviar para o problema comum a todos (ou quase todos) que peregrinam pela noite: A Rádio-Patroa, a Dona Encrenca de Souza, a Adversária... Vulgo esposa mesmo.
"Então... Eu mal coloco os "pé" em casa e é um tal de você tá "bêudo"... Você tá "bêudo"... Mas eu trabalho o dia inteiro e mereço uma distração, né mesmo? E tem mais... Vou contar uma história procê... Que você é AMIGO mesmo: Olha, quem me contou foi meu pai... E foi o pai dele que contou, então... É, foi meu avô... É bem dos tempos "dos antigos"...
Diz que Jesus tava numa cidade e ficava falando pros outros: "Gente, vamos se arrependê dos pecados, nós somos irmãos" e ficou o dia inteiro: Curava uns, dava conselhos pros outros...
Aí, chegou de noite. Jesus tava bem longe do centro e tinha que voltar, mas não conhecia direito o lugar. Foi nessa hora que uns "assaltante" chegaro e pediro o dinheiro dele, mas Jesus não carregava dinheiro. Então os "assaltante" deram uma coça nele e deixaram ele caído no chão.

Quando amanheceu, as mulheres foram para o rio lavar roupa e viram Jesus caído no chão, ele tava desmaiado.
Mas as mulheres pensavam que ele tinha ficado na farra. Passavam, olhavam e ainda falavam "Olha só! Fica falando pra gente não fazer coisa errada e depois fica na farra e dorme na rua" e nenhuma deles foi ajudar Jesus.
Então, passou um "bêudo" por perto e viu. O "bêudo" olhou e achou que Jesus também tava "alto", daí ele pegou Jesus e falou "Meu irmãozinho tá ruim... Deixa, vou te levar lá em casa e você se cura por lá..." Você sabe que todo "bêudo" é boa praça, né não?
Daí, quando Jesus acordou, ele abençoou o "bêudo" por ter cuidado dele. É por isso que a gente chega em casa e nem sabe como, sem ser atropelado e sem ser assaltado por aí. A gente sempre chega inteirinho, né não?
E as mulheres que não quiseram ajudar... Jesus chegou e disse "Nenhuma de vocês quis ajudar, né não? Não quiseram me ajudar porque tavam ocupada trabalhando? Agora vocês sempre vão tá ocupada trabalhando!"
Então... É por isso que os "bêudo" chegam em casa e vão dormir e tão interinho no dia seguinte... Mas a mulher, se ela tomá um copo de Nescau de noite, ela tem que lavar o copo antes de dormir, se não já começa o dia com serviço atrasado!"

Tive que segurar para não cair na gargalhada, ainda mais que o magrelo contava a história como se ele acreditasse de verdade... De forma séria, voz embargada...
Aceno com o copo para ele, ele responde ao cumprimento e me convida para tomar mais uma com eles. Educadamente, eu recuso.
"Você sempre tá quieto aqui no canto... Lendo seu livrinho, olhando e cuidando da sua vida... Eu te respeito, sabia? Um homem tem que ter e se dar ao respeito... Você não mexe com ninguém e respeita todo mundo, mas dá licença de eu falar? Bebe sozinho não... Bebe sozinho não... Meu pai já dizia que quem bebe sozinho, bebe com o Cão..."

(...) Tin-tin?

 

Escrito por Eddie, o Lobo às 07h32
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09/12/2008


O DIABO RIU POR ÚLTIMO (1).

Há algo emblemático em cada fechamento de ano. As reflexões que sempre ruminamos nas tardes de domingos (aquelas tardes mortas que a maioria das pessoas passa em frente à TV com a vaga sensação de insatisfação) quando questionamos o que fizemos / deixamos de fazer na semana geram juros e são avaliadas nos últimos dias do ano.

 

2008 foi mais um ano (na verdade, o Anjo Mau que tenho no meu ombro dá uma risada escarninha e diz "menos um ano, Eddie..." (2)) e posso dizer que foi um bom ano. Qualquer ano em que você consegue chegar ao fim vivo, foi um bom ano.

 

Então, vejamos...

 

Publiquei poesias em duas coletâneas; participei do lançamento de um dos livros na Casa das Rosas (SP), com direito a leitura (gaguejante) de uma delas; em março sai a publicação de uma revista especializada em fisioterapia com um artigo de minha autoria; consegui uma parceria estimulante (3) e estamos "escrevinhando" INSOMNIA; consegui a série completa de DEATH NOTE (SIM! SOU NERD!); em fevereiro retomo minha história OLHOS VERMELHOS / OLHOS AMARELOS...

 

Consegui manter meus bons amigos por perto, independente da distância física que nos separa. Estou experimentando o amargo e o doce de me apaixonar novamente; consegui me reaproximar de pessoas das quais gostava e que a vida / circunstâncias me afastou (mais importante: Isso feito antes que apenas fossemos memórias fugidias em tardes de domingo)... (4)

 

Tudo bem. Hoje sei que as chances de Sandy largar André Lima e me procurar são mínimas, mas são maiores do que eu ganhar na Megasena e tem gente que consegue, porque não eu? (5)

 

Foi um bom ano. Em 2009, tomar cuidado para não repetir os erros de 2008 e seguir em frente (pelo menos os mais graves e de efeito acumulativo... Mas cometerei alguns, afinal, qual é a graça de viver sem errar?). Um dos erros que evitarei cometer é de colocar adendos com gracinhas em meus post (6).

 

Para quem me acompanha em 2009, abraços e beijos. A gente se vê ou não, mas estaremos juntos. Para quem fica em 2008 (7), foi um prazer, pena não ter sua companhia!

 

 

(1) Excelente título para um filme, não é crianças? Adoro principalmente a citação: "Tempo? O que é o tempo? Os franceses o acumulam, os suíços o fabricam, os italianos o desperdiçam, os indianos dizem que ele não existe, os americanos dizem que ele é dinheiro e eu digo que o tempo é uma grande trapaça!"

 

(2) Tenho dois anjos que vivem falando comigo, um deles é mau. O outro é pior.

 

(3) Visitem o blog: www.pimentaepirulito.zip.net. Levem um crucifixo. Não acessem à noite. Não confiem na aparência inofensiva.

 

(4) Amigos. Valorizei / valorizo demais isso. Não importa se são poucos, nunca fiz questão de ser muito popular (o Anjo Mau em meu ombro acaba de dizer "Se nunca fez questão de ser popular, parabéns. Fez um excelente trabalho... Prova disso são os post em seu blog"). No fim, talvez eu realmente precise de apenas quatro bons amigos ao final da minha vida. São aqueles que carregarão meu caixão até a sepultura (o Anjo Pior se manifestou: "Na verdade, bastam dois. Não existe lata de lixo com quatro alças, hehehe...").

 

(5) Verdade! Tenho mais chances da Sandy largar André Lima por minha causa do que ganhar na Megasena! Mas desconfio que o fato de não jogar acaba interferindo nesta estatística...

 

(6) Isso vicia! Tentarei mesmo parar! DROGA! FIZ DE NOVO!

Escrito por Eddie, o Lobo às 19h01
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À QUEIMA-ROUPA.

Eu a esperava em uma esquina, vez ou outra voltando meus olhos para as pessoas que passavam rapidamente fugindo da chuva. Algumas corriam, na ilusão de que assim se molhariam menos e eu sabia que correr na chuva é inútil: Você vai de encontro às gotas à sua frente e de qualquer forma, todos se molham - os lentos e os rápidos. Mas existe a ilusão de que algo está sendo feito e, para a maioria das pessoas, isso basta.

 

Ninguém realmente se vê quando chove. As pessoas constatam a presença (na maioria das vezes incômoda) uma das outras, desviam-se e seguem em frente. He, talvez seja uma boa filosofia de vida afinal de contas... As únicas pessoas que enxergam algo em um dia de chuva são aquelas que procuram este algo. Ou fogem dele.

 

Um ônibus descarrega uma leva de pessoas que corre para marquises e toldos de bares. Acho bizarro ver duas mulheres distintas buscando abrigo da chuva em um bar infecto, o tipo de lugar que elas jamais entrariam (ou talvez já tivessem freqüentado demais em sua juventude / outra vida). O instinto diz: Fuja da chuva, não importa para onde.

E fixo meus olhos na única pessoa que nega este instinto, cobrindo a cabeça com uma pastinha de plástico e caçando algo com o olhar. Ou talvez fugindo deste algo.

Eu.

 

Carrego cicatrizes. Ninguém sobrevive sem cicatrizes e garanto que ela deve ter algumas também. As gotas que impregnam meus óculos diminuem em muito minha visão, mas isso não importa. Terei que chegar muito perto para fazer o que deve ser feito. Esta chovendo e ninguém se importa com ninguém em um dia de chuva. Eles correm. Desviam os olhos. E ela está olhando para outro lado, basta andar rapidamente...

 

Pela suas costas, ao alcance da minha mão. Sinto o cheiro suave de seu suor apesar do perfume delicioso. Fui cuidadoso, soube manter a distância necessária, fui uma sombra na chuva e enquanto pela milésima vez tento decidir o que fazer, ela se volta de repente.

 

Ela sabia. De alguma forma, ela sabia que eu estava lá.

Enquanto todos desviam o olhar e reclamam pelos sapatos encharcados, nós nos encaramos e eu vacilo por um segundo apenas, tentando definir a cor de seus olhos. Olhos felinos, tons de verde e cinza que mudam conforme a claridade.

 

Eu vacilo, ela não.

Sem amenidades, sem hesitar. À queima-roupa.

O primeiro beijo me pega de surpresa, apesar de eu já estar esperando.

"Senti sua falta", ela me diz com a voz triste. Os olhos felinos confirmam e quase posso ouvir o ronronar que deveria acompanhar este tipo de olhar.

Eu a abraço porque desejo, mas uso a desculpa de protegê-la da chuva que cai.

E fico feliz que as pessoas apenas resmunguem e desviem de nós, enquanto não fazemos absolutamente nada para fugir da chuva.

Escrito por Eddie, o Lobo às 19h00
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06/10/2008


AS MÃOS DE ALVAREZ (1º PARTE)

           - Estão lindas...

            O elogio pegou Alvarez de surpresa. Atrás de si, sua esposa balançava a cabeça satisfeita.

            - Faltava apenas uma poda, remover os insetos daninhos... Coisa simples.

            O jardim florido recendia o cheiro de terra fresca molhada, rosas e folhas. O Sol brilhava entre as ramagens e as gotas suspensas refletiam a luz em efeitos prismáticos.

            - Pode ser... Pode ser... Mas ninguém faria isso como você, amor. As rosas estavam quase mortas, você sabia que tem o toque de um anjo? Sério: Toda planta que você toca parece ganhar vida!

            Ela acariciou as mãos do marido. Calejadas, dedos compridos e unhas sempre bem feitas. Limpou a terra com a beira do vestido e beijo-as.

            - Elas podem fazer bem mais do que ajeitar folhas e flores...

            Riram.

            - Depois. Agora eu tenho que providenciar o jantar e as crianças precisam de atenção... E sua mãe anda reclamando de dores novamente... Ela pediu para não falar nada, mas...

            Ele assentiu.

            - Eu cuido disso.

(...)

            O garoto olhava frustrado para as peças do aeromodelo, procurando esconder o choro.

            - E então, campeão? Não agüentou esperar pela ajuda do pai?

            Virou-se assustado, os olhos culpados aguardando uma repreensão que não veio. Alvarez sempre conseguia se aproximar silenciosamente e tinha a fantástica capacidade de flagrar seus filhos em momentos como aquele.

            - Pensei que conseguia fazer sozinho... Agora, eu estraguei tudo... Olha!

            Manuseou a asa recém montada. As peças estavam tortas e havia excesso de cola, formando uma espécie de cicatriz nas junções. A folha com adesivos para a carlinga, asas e laterais estava amassada e cheia de cola. Alvarez riu.

            - Não está tão mal assim... Vai na garagem, pega minha caixa de ferramentas e vamos tentar de novo... Desta vez, juntos.

            Lixa fina, lixa de unhas que Alvarez fingiu roubar da mulher, agulhas, adesivo plástico... A asa foi refeita e o garoto olhava fascinado enquanto as peças iam sendo destacadas e encaixadas com precisão. Nenhum excesso, nenhuma peça torta. O avião estava perfeito... Ou quase.

            Munido de um pincel de ponta firme e tinta, Alvarez o pintou e desenhou caprichosamente os símbolos nos locais certos, copiando aqueles da caixa do aeromodelo. Não sabia o que significavam, mas sabia que o filho sorria e ficava espantado com a precisão e o capricho. As mãos manuseavam peças minúsculas sem a mínima tremedeira ou insegurança. Precisas, exatas.

            - Agora, precisamos deixar secar antes de você brincar com ele. Um pouco de paciência agora, hein?

            - Que habilidade, papai! Olha: Ficou perfeito! Até os círculos com a cruz vermelha... Nem parece que foi pintado!

            Beijou as mãos do pai em agradecimento e foi brincar com Lalá, enquanto a tinta secava e o jantar estava sendo preparado.

(...)

            - A benção, mãe.

            - Deus te abençoe, meu filho.

            A velha senhora estava sentada no sofá, as pernas enroladas em um velho cobertor com cheiro de limpeza. O trabalho de crochê estava abandonado em um canto havia semanas, aguardando que o tempo voltasse a ficar seco.

            - As mãos novamente?

            A velha sorriu de forma triste, meio acanhada.

            - No fim da vida, meu filho... Logo eu vou me encontrar com seu pai, mas até lá... Só dando mais e mais trabalho para você, meu querido...

            Tomou as mãos da mãe com cuidado. As manchas espalhavam-se pela pele enrugada e os dedos estavam curvados para dentro. Delicadamente, começou a massagear enquanto falava sobre o dia, sobre a copa do mundo que se desenrolava na Alemanha, sobre o preço dos alimentos e sobre o jardim.

            A velha ouvia e arriscava um ou outro palpite, feliz pela atenção dispensada e pelo alívio das dores, conforme a massagem prosseguia.

            Após terminar com as mãos, tocou os pés enregelados de sua mãe e começou nova massagem, desta vez para facilitar a circulação do sangue.

            - E estes comunistas, meu filho? É verdade que eles cospem na face de Cristo nas igrejas?

            - Quem lhe disse isso, mamãe?

            - Eu ouço as conversas... Gente ruim... Não acreditam em Deus nosso senhor e querem acabar com as famílias... Dizem que cada vez mais pessoas estão virando comunistas...

            - Os comunistas não vão chegar perto da senhora, mamãe. Eu te protejo, está bem?

            - Debochado! A velha riu-se, sentindo os pés novamente.

            - Deboche nada, olha só o tamanho desta pata! E balançou a mão aberta, rindo em acompanhamento.

            - Agora eu vou para casa, o jantar deve estar esfriando e eu preciso ver a Lalá... A benção, mãe.

            A figura enorme do filho afastou-se. Ela olhou as mãos com os dedos em sua posição correta novamente, sentiu a vida percorrer as velhas pernas. Sussurrou baixinho.

            - Deus te abençoe... Deus te abençoe...

Escrito por Eddie, o Lobo às 19h24
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AS MÃOS DE ALVAREZ (2º PARTE)

(...)

            - Mas é verdade! Tem um bicho debaixo da minha cama!

            - Lalá... Papai e mamãe não podem ficar deixando você dormir toda noite na cama deles...

            - Por que?

            Alvarez olhou confuso para a menina de grandes olhos e sorriso banguela. Sua esposa escondeu o riso e ficou esperando qual resposta ele daria.

            - Porque... Porque não tem bicho debaixo da cama! Olha, vamos ver juntos?

            A menina balançou a cabeça, teimosa.

            - Papai, ele só aparece quando a gente apaga a luz!

            - E se papai deixar a luz acesa? Assim o bicho não aparece...

            - Viu? Você sabe que tem um bicho!

            Alvarez ficou vermelho. Sua esposa agora gargalhava abertamente. Era sempre assim: O gigantesco Alvarez sempre conseguia ser feito de bobo pela filha que não alcançava sequer a marca de sua cintura. Resolveu ajudá-lo.

            - Lalá, não tem bicho nenhum, são só sombras!

            A menina olhou desconfiada.

            - Sombras?

            Alvarez teve a idéia e pediu uma vela para sua esposa. A menina olhava cada vez mais desconfiada, enquanto ele apagava a luz e acendia a vela. Ameaçou chorar, mas sua mãe estava sentada ao seu lado.

            - Sombras são... São... Veja isso: Quando a gente coloca alguma coisa na frente da luz, ela faz sombra na parede.

            A mão espalmada acenou para ela.

            - Mas isso é sua mão, o bicho não se parece nada com isso!

            - Às vezes, uma coisa pode fazer várias sombras diferentes... O bicho se parece com isso?

            A outra mão uniu-se a primeira e logo a sombra de um galo apareceu na parede.

            - Não! A menina e a mãe riram.

            - Então... Com isso?

            Um cavalo apareceu. Alvarez imitou um relincho e fez a sombra mover-se, como se estivesse comendo alguma coisa.

            Um pássaro voando, um velho, um índio... As sombras apareciam e desapareciam e Lalá ria até o limite das lágrimas. Não demorou e ela resolvesse imitar o pai e brincar com as sombras. A mãe entrou na brincadeira e inventou uma história, enquanto o marido criava com as mãos as personagens correspondentes.

            Logo a menina caía em um sono tranqüilo. Cobriram-na e saíram silenciosamente do quarto.

            - Que dia! Você é a terceira criança desta casa, sabia?

            Alvarez tocou nos ombros de sua esposa e pressionou lentamente.

            - Hummmm... Retiro o que disse. Talvez não tão criança assim...

            Entraram no quarto do casal. Ela sentiu a camisola sendo retirada, mas mal sentiu as mãos roçando seu corpo durante o processo.

            - Mãos leves...

(...)

            Eles chegaram de madrugada. O telefone tocou pouco antes do carro estacionar na frente da casa de Alvarez, dando tempo suficiente para que ele colocasse suas roupas e só. Sua esposa fez um muxoxo de desagrado, mas resignou-se. Sabia dos horários de seu marido e não se queixava.

            Alvarez passou pelo quarto de seu filho. O garoto dormia, ainda agarrado ao avião como a um troféu raro. Retirou o brinquedo silenciosamente, sem que o garoto acordasse.

            A menina estava descoberta. Mãos suaves e protetoras a cobriram novamente.

            Seguiu em silêncio, embora os ocupantes do carro puxassem assuntos sobre a Copa de 74, a falta de Pelé, Gérson, Carlos Alberto Torres e Tostão, a recente vitória do Brasil contra a seleção Argentina...

            Alheio a tudo, Alvarez torcia as mãos.

            Ao chegarem, deram-lhe nomes, lugares, um resumo dos acontecimentos e das suspeitas. Alvarez colocou um capuz que deixava expostos somente os olhos e entrou na sala.

            Sentados e com as mãos amarradas atrás das costas, dois homens e uma mulher aguardavam. Alvarez não faria perguntas... Não ainda.

            Por experiência, sabia que as mulheres agüentavam melhor a dor do que homens. Foi por ela que resolveu começar.

            Antes, apenas mostrou as mãos aos dois homens. Os agentes do Departamento de Ordem e Política Social sorriram.

            No DOPS, todos sabiam as maravilhas que Alvarez era capaz de realizar com suas mãos.

Escrito por Eddie, o Lobo às 19h23
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28/08/2008


TRANSCRIÇÃO.

            “Uma menina voltava para casa e um cãozinho resolveu segui-la. A menina correu, o cãozinho correu atrás.

            A menina saiu de seu caminho, o cãozinho desviou-se também.

            A menina entrou em um espinheiro, o cãozinho a acompanhou.

            A menina atirou pedras no cãozinho. Ele sofreu a agressão, mas mesmo assim a seguiu.

            Então, a menina pegou um pedaço de pau e o atingiu diversas vezes. Sem fugir, o cãozinho morreu.

            E a menina o enterrou debaixo de sua árvore favorita e todos os dias ia até lá, chorar sinceramente pela perda do único ser que ela tinha A CERTEZA de que nunca a abandonara”.

 

            Quisera eu ter escrito estas poucas (e significativas) linhas. Na verdade, transcrevo de memória uma fábula curta do livro “O Historiador”, de Elizabeth Kostova.

 

            ... E, no entanto...

Escrito por Eddie, o Lobo às 18h14
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09/08/2008


ANJO

Um Anjo se aproximou de mim naquela noite trazendo a paz anunciada e tão esperada em seus olhos de pomba mansa.
E caminhou em minha direção com a graça e a leveza de um colibri, talvez porque não buscasse nem graça e nem leveza, somente a certeza de seus passos.
E mais perto, com suas asas abertas que lhe davam o ar de tristeza meditativa dos cisnes que olham melancolicamente para os céus, incertos de levantar vôo ou não.
E bem próximo, até que seus sussurros de rouxinol anunciassem promessas de tardes oníricas de verão, quentes e aconchegantes.
E aproximou-se. Bem mais perto. Tão próximo...

(...)

Tinha gosto de galinha, mas não tinha a mesma consistência. Parecia chuchu cozido.
Quando vou aprender? Como dizem: “Boa de feição e de prosa, porém sem nenhuma sustança”
Mas como tinha penas...

Escrito por Eddie, o Lobo às 12h02
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